[sábado, julho 23, 2005]

* Vemos, ouvimos e lemos
Posto isto, a poetisa concluía: "Não podemos ignorar." O escritor moçambicano Mia Couto actualiza esta incitação: "[Nós], os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção maciça: a capacidade de pensar."
Vimos, há meses, um cientista cujo nome lamento não ter registado, declarar que "a humanidade se encontrava numa situação de estagnação evolutiva, sem paralelo em toda a sua história."Debatia-se com a insensatez de estarmos a aguardar a exaustão de um recurso natural não renovável, detendo por várias décadas o conhecimento de tecnologias alternativas e vantajosas que, aparentemente, só terão oportunidade, quando o petróleo desaparecer. O exemplo com que ilustrava a afirmação não era menos veemente: "Não foi por ter acabado a pedra que se passou à era seguinte. Pelo contrário, continuamos a recorrer à utilização da pedra, nos exactos termos e modos em que ela se manifesta vantajosa, mormente com base em processos inimagináveis na sua remota era."
Ouvimos o Professor Rui Namorado Rosa, da Universidade de Évora, afirmar que a escassez física do petróleo (que o "mercado" não alcança), a crise económica geral (também nos EUA), a debilitação do dólar (ainda o principal instrumento de transacção comercial e de reserva dos bancos centrais), acrise financeira mundial, a emergência da zona euro, a possibilidade da OPEP vir a adoptar o euro na denominação do preço do petróleo constituem uma combinação de factores entrelaçados e aparentemente explosiva".
Lemos, do escritor norte-americano Gore Vidal, uma reflexão anunciando que "quem se propuser a tarefa de determinar o preço de um barril de petróleo, sem considerar custos de guerra(...) dos EUA, não conseguirá concluir o cálculo."
Junte-se a esta lógica a interrompida folha de bons serviços de Saddam, enquanto aliado estratégico dos EUA, e compreender-se-á finalmente a "necessidade" da sua substituição... Permanecerá hipócrita a "preocupação", súbita e serôdia, com as condições de vida dos povos do Iraque.
Peço-vos que pensem, comigo por momentos, nuns quantos seres nossos iguais, frequentemente esquecidos pelo fulgor mediático: os meus amigos iraquianos.
Os meus amigis iraquianos saíram do Iraque, no dobrar dos anos 70 para os 80, quando o Iraque começava "a ser" de Saddam. Uns, porque são curdos; outros, progressistas; alguns, ambas as coisas; mas muitos, porque simplesmente se "opunham" e, se acaso se destacavam, era fugir ou morrer!
Os meus amigos iraquianos não conseguiram evitar Saddam, tal como nos demoraram Salazar e Caetano. Veio a "Tempestade no Deserto" e o tempo era de guerra - nunca de esperança...
Sabiam que não podiam voltar ao país e assistiam; à morte dos seus que lá ficaram, à miséria e ao desespero, ao boicote e ao fanatismo e ao "novo Saddam": inimigo poupado, ameaça contida, islamita farsante, fornecedor do mundo. Para maior cúmulo, viu reforçada a posição do ditador, alcandorado ao papel de factor da coesão nacional suscitada pela intervenção estrangeira.
Que será agora dos meus amigos iraquianos? Lembremos a pergunta infantil de John Le Carré:
"-Vão matar muita gente, papá?
-Ninguém que tu conheças, querido. Só estrangeiros."

Quando se anuncia a (longa) ocupação militar, após a vitória, pensem como os generais "vencedores" tratarão da democracia no Iraque: Os Estados Unidos da América ocuparam o Haiti durante 19 anos, e fundaram o poder que pariu a ditadura de Duvalier; Ocuparam a Republica Dominicana, durante 9 anos, e fundaram a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo; Ocuparam a Nicarágua, durante 21 anos e fundaram a ditadura de Somoza. E o Chile, e o Irão, e o Kuwait, e o Afeganistão, e tantos outros! E não me venham com o Japão, onde o processo de "democratização" começou com o lançamento de duas bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui. Assiste-nos o nojo que assolaria os países da democracia mal herdada: Thomas Jefferson, John Adams e Benjamim Franklin.
E pensem na questão levantada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano, referindo-se a Bush II, o mais eficaz promotor do antiamericanismo, na actualidade: "Quem o elegeu presidente do planeta? A mim ninguém me convocou para votar nessas eleições. E a vocês?"
Somos contra a pena de morte, nós, portugueses, pioneiros no mundo. Não os matem, julguem-nos e condenem-nos nominalmente: os Saddams, os bushs, os blairs, os aznares e os mais que urge arrolar à acusação...
Em nosso nome!

(Hernâni Mergulhão) Professor do ISEL, que faz o favor de ser meu amigo.
Bem haja professor pela sua lucidez
Um abração do
Zecatelhado


por Zecatelhado * 23:06


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