[domingo, julho 31, 2005]

* O Corvo e A Raposa

( Juro que não estou a fazer concorrência ao Expresso )

Era uma vez...
...Um corvo que acabara de bifar um queijo-tal e qual como um seu antepassado que ficou célebre numa história de La Fontein, devido à sua aselhice -. Com o acepipe bem preso no bico, voou para o cimo de uma árvore bem alta e preparou-se para o devorar.
Ora acontece que a comadre raposa andava farejando por ali, morta de fome. O dono da Quinta de região, há muito deixara de criar galinhas. Nestes tempos modernos, os aviários produziam-nas em menos de um fósforo, sendo por isso muito mais económico comprar os galináceos no super ou hipermercado. Acresce ainda que, sendo o quinteiro já velhote, poupava-se a essa trabalheira. Para se entreter, ia cuidando da horta e de umas árvores de fruto. Ora, como os frutos e os legumes não faziam parte da dieta da comadre raposa, lá tinha a desgraçada que matar a fominha caçando uns ratos do campo, coisa que andava a fazer no momento.
Ao ver o parvo do corvo com o queijo no bico aterrando em cima da árvore, ficou com a boca a escorrer saliva de desejo. Como bifar o queijo ao corvo? Trepar à árvore estava fora de causa; a mãe natureza e o Criador não lhe haviam dado a faculdade de trepar tronco acima, vai daí, ter que jogar a mão a outro tipo de "arma" que fosse suficiente para suplantar a fraca inteligência da ave de agoiro. Porque tinha uma excelente memória, lembrou-se rapidamente da história acontecida há uns tempos atrás entre uma sua antepassada e um parente finado do compadre corvo.
- Olá compadre corvo, bons olhos o vejam! Então como vai a sua vidinha?
Tal como na história passada, pensou a raposa que o estúpido animal emplumado abrisse a boca para responder e deixasse cair o queijo, só que desta vez...NADA! O corvo não se "descoseu".
- Que penas tão brilhantes que o compadre tem hoje! Sabe que ainda não vi nesta floresta penas tão belas e brilhantes como as suas?
Esperava que a sua matreirice e a natural vaidade do labrego do compadre combinassem na perfeição... só que...NADA! Aquele passaroco bronco não abria o bico!
Entretanto, junto ao "cenário" onde o drama se desenrolava, já se havia juntado uma plateia enorme, roída de curiosidade pela cena e pelo desfecho final da mesma.
- Ó compadre, não me quer vender esse queijo? (já em desespero total)
Mas o corvo continuava mudo como a estátua do Marquês de Pombal; E pior que isso, já haviam alguns animais que troçavam da raposa, rindo à vara larga. Era o caso do mocho sapiente, da cobra astuta e, imaginem!? de Sua Real Majestade D. Leão!
Se havia coisa que a comadre raposa detestava era a de passar por parva. A sua vaidade era genética e não lhe permitia suportar o "achincalhamento" público, por isso começou a sentir-se muito mal naquela situação.
Vendo a atrapalhação da súbdita, que podia transformar-se em algo muito mais complicado já que a raiva começava a desenhar-se na ponta do seu focinho, o Rei Leão decidiu intervir e colocar um ponto final na história. Avançou então direito à raposa, colocou-lhe a para direita sobre os ombros da bichinha e conduziu-a devagar para fora de cena dizendo-lhe:
- Minha querida amiga e súbdita; Não fiques nesse estado. Tu não estás a perder faculdades nem o parolo do corvo a criar virtudes. A Natureza continua imutável, portanto nada de peocupações desnecessárias. O que aconteceu foi algo que muito dificilmente se repetirá, ou seja: houve dois factores que convergiram por acaso!...
- Ai sim? ( perguntou a raposa já mais animadita ) e quais foram eles?
- Então, amiga... primeiro factor: A história nunca se repete. segundo factor: Por azar teu, porque o ignoravas, fica sabendo que este corvo é surdo mudo!



por Zecatelhado * 13:36


*******************************