[quinta-feira, julho 21, 2005]


* Na Barca do Inferno de Mestre Gil
Auto de moralidade composto por Zecatelhado por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Dª Maria Rita, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei D. Cenourinha, primeiro de Portugal deste nome. Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos subitamente a um rio, o qual per força havemos de passar pera o inferno: o batél tem um seu arrais na proa: o Berzebú infernal e um companheiro.

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Acabando de despejar o fidaldo da ilha no inferno, o Diabo e o Companheiro voltam a fazer o caminho até à margem do cais de embarque em busca de novas almas.

DIABO: Filho da pata que o pôs!
Que refinado cabrão!

COMPANHEIRO: O arroz já lhe darão
os mafarricos da casa!

DIABO: Já mandei que um ferro em brasa
lhe fosse bem aplicado!

COMPANHEIRO: E foi muito bem pensado
concordo com esse "afecto"!

DIABO: Bem pelo centro do recto
até sair pela boca!

COMPANHEIRO: E isso 'indé coisa pouca
para bicho tão repelente!

DIABO: Ponto final no demente
vamos lá buscar mais um!

( Chegam à margem e ao cais onde os aguarda outra figura - ou figurão, conforme a prespectiva )

COMPANHEIRO: À barca, à barca senhor
que temos gentil maré!

DIABO: Olha lá pr'ó granizé
fazendo papo de galo!

COMPANHEIRO: Vamos então embarcá-lo
dar-lhe o inferno em destino!

DIABO: ( para a figura ) De onde vens tu meu menino
feio olho de goraz?

FIGURA: Te renego Satanás!
Abrenúncio! Berzebú!...

DIABO: ( para o ajudante ) Mais um que quer pelo cú
um ferrete bem quentinho!

FIGURA: Não entro nesse barquinho
nem morto, ser repulsivo!

DIABO: ( rindo ) Mas acaso estás tu vivo
ó meu pavão emplumado?

FIGURA: Embora morto e enterrado
estou bem vivo na história!

DIABO: ( às gargalhadas ) Ai como adoro a vanglória
deste sapo tão inchado!

FIGURA: Sapo eu, ser odiado?
fica então tu a saber!...

DIABO: ( para o Companheiro ) Ouve o que nos vai dizer
este papalvo da treta!

FIGURA: ...que até Pessoa, o poeta
um dia a mim se referiu!

DIABO: ( jocoso ) Mais modesto não se viu
nunca, por este cais!

FIGURA: E ainda te digo mais
fez um apelo aos peixinhos!...

DIABO: Que fechassem os olhinhos
e seguissem o pedante?

FIGURA: Não, meu ignorante,
que fossem atrás do cherne!...

DIABO: No que à vaidade concerne
davas meças a Narciso!

FIGURA: E eu desde já te aviso
que não tolero a insolência!

DIABO: E saiba vossa excelência
que já basta de paleio!

COMPANHEIRO: ( dando com o remo em cheio no rabo da Figura )
Está terminado o recreio
ora toca a embarcar!

FIGURA: Mas como ousas tocar
em mim que sou importante?

DIABO: ( rindo como desalmado QUE É )

Olha que ao meu subalterno
salta a tampa da marmita
e se uma coisa o irrita
até eu, Diabo, tremo
se agarra a sério no remo
prega em ti um tal enxerto
qu'inda ficas sem conserto
antes de entrares no Inferno!




por Zecatelhado * 16:51


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