[sexta-feira, julho 22, 2005]



Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
com tricórnio de côr preta
D. José a comandar
D. Costa trata de ver
se corre tudo a preceito
D. Diogo vai escolher
os aliados de peito
D. Cunha juntou-se ao Pinho
dois em um, está bom de ver
p'ra contar o dinheirinho
que o baú vai receber
D. Luís limpa os canhões
D. Correia é enfermeiro
a Lurdinhas dá lições
a tudo que é marinheiro
D. Jaime é o despenseiro
D. Gago lê as estrelas
D Lino faz de pedreiro
D. Correia limpa as velas
D. Vieira é o tenente
mais querido da marinhagem
é ele que paga à gente
em cada mês de viagem
D. Pedro de pé à ré
transmite pr'à populaça
aquilo que D. José
ordena pois que se faça
D. Augusto é o papagaio
escolhido p'lo Capitão
D. Alberto é o lacaio
encarregue da prisão
A Dª Isabel de Lima
tem tarefa desgastante
escada abaixo, escada acima
que a cultura é importante
P'ra compôr o ramalhete
das flores do Capitão
só faltava o mandarete
quem é ele?...D. Lacão
É esta a tropa fandanga
que promete à Catrineta
que o discurso da tanga
já foi posto na gaveta
Com estes novos doutores
vai ser um sempre a aviar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar


Neste Ano Santo da Graça
aos vinte do mês de Julho
estando o país ao barulho
outra vez com tudo a arder
por ninguém querer entender
porque acontece esta praga
um'outra história aziaga
ombreou com tal desgraça

Pairava grande ameaça
com a escassez do pilim
muita gente chama assim
àquilo que compra o pão
o tintol e o sabão
o azeite, o bacalhau
a pimenta, o colorau
e sem o qual minguém passa

Valentes homens de raça
os marinheiros da Nau
sabendo tudo tão mau
no que à "guita" diz respeito
aguentavam de peito
o infortúnio e a desdita
fruto da corja maldita
com mestrado na trapaça

Esse bando que esvoaça
qual abutre rapineiro
quando lhe cheira a dinheiro
mergulha em voo picado
e nunca está saciado
do seu voraz apetite
d'uma avidez sem limite
é composta a sua massa

Fôra tão grande a devassa
pela qual a Nau passou
que pouco ou nada sobrou
do ataque do tal bando
e a malta agora amargando
esse fartar-vilanagem
suportava com coragem
a má vida na barcaça

Mas quando a má-sorte abraça
atrás de uma outra vem
e nesse dia também
o ditado se cumpriu
um grande grito se ouviu
o célebre "homem ao mar!"
alguém ousara pular
sentido o fundo a uma braça

"Agarrem-me essa carcaça
que daqui ninguém se pira
olha que coisa tão gira
era só o que faltava
ou repartimos a fava
deste bolo nauseabundo
ou vamos todos ao fundo
gente bem e populaça!

Juro, não sei que faça
a este traidor de um raio
vai levar um tal "ensaio"
de chibata nos costados
que ficarão bem marcados
p'ra nunca mais se esquecer
que a quem se quer escafeder
declaro aberta a caça!

Olha quem é a fataça!
D. Cunha?! Não posso crer!
diga, que quero entender
porque quis "dar o cavanço"
mas vós julgais que eu sou tanso
ou que o vigia é zarolho
cego, com algum terçolho
ou pifado de cachaça?

Diz lá ó alma vivaça!.."
"D. José, por piedade!
juro dizer a verdade
não me mandeis açoitar!"
"Então começa a cantar!"
"Eu só quis dar à soleta
saltando da Catrineta
como a osga salta à traça...

Somente por quão madrassa
foi p'ra mim a triste sorte
só sendo um doido de morte
ou um bombista suicida
aceitaria na vida
trabalho a perder dinheiro
eu também não sou bombeiro
nem chanfrado da "cabaça"...

Pensei: Que se lixe a taça
vou mas é desopilar!
então se posso ganhar
mais com as reformas que tenho
ando a chorar baba e ranho
sofrendo a tola em acção
ataques de comichão
quais picadas de carraça?"...

"Ergamos na primeira praça
uma estátua a este santo
ou mesmo uma em cada canto
para ser mais comovente
anda p'raí tanta gente
tendo pensões de velhice
que s'este exemplo seguisse
p'rá malta era uma panaça!"

" Quem é que assim testemunha?"
-interrogou D. José-
"Eu!" que estou aqui de pé...
-disse um marujo jingão-
e a turba juntou-se então
ao camarada jocoso
e em uníssono, no gôzo
bradou: Á "G'ANDA" CUNHA!


Autor: Zecatelhado - em : wwwlimite.blogspot.com


por Zecatelhado * 17:25


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