[quinta-feira, julho 07, 2005]


Não vou estar a mencionar aqui o porquê das grandes migrações oriundas do interior pobre de Portugal para a Capital há cinquenta anos atrás. Existe bastante documentação ( na Net, p.e.) para um estudo mais aprofundado do fenómeno. Além disso, desviar-me-ia de certa forma do principal objectivo que me levou a debruçar sobre o tema:
«COMO ERAMOS DIFERENTES HÁ CINQUENTA ANOS ATRÁS»
Tenho que dizer-vos o seguinte: Nasci há precisamente meio século, numa zona de Lisboa onde viviam lado a lado famílias operárias pobres e muito pobres, com famílias da classe média à época, ou seja, trabalhadores bancários, empregados de escritório quadros médios de empresas, construtores civis, etc..
Eram dois bairros distintos: O Bairro da Liberdade, com habitações de tipo "abarracado" e barracas genuínas, feitas de madeira e lata, onde viviam as famílias mais pobres, e o Bairro da Serafina, onde morava a tal classe média. Nada havia a separar os dois bairros a não ser a distinção no pavimento das ruas e o traçado das mesmas. A Serafina pavimentada a alcatrão e com um desenho mais ou menos ordenado, e o Bairro da Liberdade com pavimentação de blocos de basalto negro, ou pura e simplesmente não pavimentadas, ou seja: de terra batida.
Como só existiam duas escolas primárias na zona, os miúdos misturavam-se e faziam grandes amizades, conhecendo uns e outros o modo de vida de ambos os lados.
Como convivi também de perto com estas duas realidades, penso poder ajudar a entender melhor a forma como se vivia então em Lisboa.

Parte I - A Higiene

O saneamento básico no Bairro da Serafina sempre existiu desde o nascimento deste. As casas, pequenas e médias vivendas propriedade da Câmara Municipal de Lisboa que as alugava à época à média de 500$00 mensais ( hoje 2,5 euros que era uma pequena fortuna na altura, basta lembrar que o salário semanal de um operário especializado era de aproximadamente 800$00: 4 euros), rés-do-chão com um pequeno quintal. Possuiam casa de banho, canalização para águas quentes e frias e banheira. As famílias tratavam da sua higiene com as condições que hoje disfrutamos, só que os hábitos eram ligeiramente diferentes e na altura não houvesse tanta quantidade e especificidade de produtos que hoje temos à disposição. Os sabonetes, por exemplo, eram caso raro e só alguns -poucos- usavam. Na altura, creio, as marcas que compunham o mercado português eram o "Feno de Portugal", o "Lux" e o "Rexina". O "sabão de seda" era o que a grande maioria da classe média usava. Quanto à rotina higiénica: Banho duas vezes por semana - geralmente ao Sábado ao fim da tarde e Quarta-Feira à noite. Diáriamente faziam a lavagem da cara, pés e partes íntimas. A higiene oral não era muito cuidada; lavavam-se os dentes só nos dias da banhoca!
Entres os pobres a "música" era outra. A rede de saneamento básico estava lá, mas a quase totalidade das "casas" não possuia casa de banho. Algumas, não todas, possuiam uma pia de despejos ( em pedra de granito) onde se despejavam as águas de todos os tipos de lavagens. Na ausência de casa de banho aconteciam duas realidades diferentes: Nas chamadas "Vilas" ou Páteos, existia uma espécie de compartimento colectivo, com uma sanita rasante a que hoje chamamos "sanita turca", onde as necessidades fisiológicas dos habitantes do Páteo ou Vila eram feitas. Nas casas individuais, as necessidades eram feitas num pote de barro com mais ou menos 50 cms de altura e que tinham uma tampa de cortiça muito justa. Todos os dias passava uma carroça da Câmara Municipal, puxada por um muar, que recolhia os dejectos. Imaginem o cheiro da carrocinha! Sentia-se a "quilómetros" de distância! Nós miúdos chamavamos-lhe inevitavelmente "A carroça da M....". Algumas pessoas ( mais os homens ), como o Bairro fica encostado ao Parque Florestal de Monsanto, iam fazer as necessidades "À Serra", como afirmavam.
O papel higiénico era um luxo só ao alcance das famílias com maiores posses, por isso considerado "um luxo". A "limpeza do rabinho" era feita com papel de jornal. Cortavam-se folhas de +- 25x25 cms e " espetavam-se" num arame ao lado da pia.
Diariamente lavava-se a cara com sabão branco e molhava-se o cabelo para a penteadela. Banho só ao Sábado ao fim da tarde após o regresso do trabalho. Como não havia casa de banho e banheira muito menos, o acto era feito da seguinte forma: Numa das divisões da casa ( geralmente a cozinha) colocava-se um alguidar de zinco, bastante grande e único para o efeito, que era meio-cheio com duas panelas de água quente. Depois, com o tal sabão branco, "tomavam banho" o pai, a mãe e os filhos, quase sempre por esta ordem, NA MESMA ÁGUA!
Para as pessoas pobres, lavar os dentes não estava muito nos seus hábitos. O dinheiro era pouco e esse "luxo" podia evitar-se. No entanto havia algumas (poucas) excepções que, tal como os da classe mais alta, faziam-no depois do banho.
Quem trabalhava nas fábricas e oficinas já tomavam o seu "duche" habitual.
Também existiam "balneários" públicos propriedade da Câmara Municipal, onde alguns recorriam para o seu banhito de Sábado ( ou neste caso de Domingo pela manhã ). Há 50 anos atrás custava um banho "dez tostões" (um escudo). Para que os mais novos tenham uma noção do preço, 5 cêntimos hoje equivaleriam a 100 "tostões", ou seja: pagariam dez banhos.
A rapaziada juntava-se geralmente em pequenos grupos, toalha, sabão e muda de roupa debaixo do braço e lá iam eles.
Haviam ainda dois "carvoeiros" no Bairro da Liberdade que "vendiam" banhos-duche. Estes eram mais caros 2 tostões que no balneário.
Para encerrar este capítulo não resisto a contar-vos uma das brincadeiras por nós, miúdos, nas tardes quentes de Verão: Íamos em bandos autênticos para um local do Parque de Monsanto chamado "Fonte dos Amores" e que ficava bem em frente ao Palácio do Marquês de Fronteira, na rampa de Monsanto. Ali corria uma nascente natural que deslizava rocha abaixo. Armados de sabãozinho, deliciavamo-nos com aquele banho selvagem seguido de secagem ao sol.

...Continua... Para a semana abordarei outro tema.

Um abração
Zecatelhado


por Zecatelhado * 20:56


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Comments:
Muito interessante!
Um abraço
 
Deliciosa história:) beijos e bom fim de semana
 
Um dos carvoeiros era na Vila Ferro. Tinha td isso sim sr., mas a infancia feliz e cheia de liberdade que tive,ninguem me tira.
 
Engraçado ler uma história do meu bairro, moro no bairro da liberdade, perto dos antigos tanques e do saudoso campo "LUSITANO" e confesso que me orgulho muito desta zona. Tenho 23anos e recordo-me dos poucos recursos sanitários que tinhamos, pobre como o caro senhor o diz. Mas a vivência do bairro continua hoje a ser o mais prezado e por mim o mais desejado, considero que estamos numa das melhores zonas de Lisboa, rodeados pelo Monsanto. A alegria de ver os miudos correrem nas ruas não é a mesma mas de outra hora certamente, mas apenas para concordar que tive uma infância super feliz e cheia de liberdade, tal como o nome do bairro reflecte. Beijos
 
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