[terça-feira, julho 19, 2005]

* A Cigarra e a Formiga

Trabalhando arduamente todo o Verão, preparava-se a formiguinha para o merecido descanso de Inverno no conforto do seu lar. A despensa abarrotava de comida, fruto da luta incansável que travara. Era mais que merecido este descanso.

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A cigarra chegou a casa e arrumou a viola.
Passara o Verão num folguedo tremendo, dando concertos por tudo o que era bosque. Agora, chegado o Inverno, estava apreensiva: Como iria sobreviver com a despensa completamente «às moscas»? Logo se veria.

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O rei Leão relaxava após ter emborcado meio gnu bem gordito. A vida era bela. A bicharada respeitava a sua autoridade sobre tudo e sobre todos, pois temiam a sua força. Era ele que decidia as questiúnculas entre os súbditos, tentando sempre com a sua sabedoria ( e matreirice ) aplicar a justiça o melhor que sabia.

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Como dissemos, o Outono estava a dar os últimos suspiros e o Inverno aproximava-se rapidamente, dando sinais que ia ser duro e bravio. Uma chuvada diluviana abateu-se sobre a floresta com tal violência que arrastou tudo à sua passagem.
A pobre da formiguinha que ainda há pouco dera graças ao Criador Supremo pela abastança conseguida, viu num repente a água em fúria invadir a sua casa, levando na enxurrada tudo o que havia armazenado com tanto esforço.
Chorosa e mal-dizendo a sua sorte, viu ainda para cúmulo dos cúmulos a água atirar o que fora seu contra a porta da preguiçosa cigarra. Esta vendo tal milagre dos céus, cantava hossanas em louvor dos santos que haviam patrocinado tal milagre, enquanto arrecadava feliz da vida tudo dentro de casa.

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REI LEÃO
-
Pois dona formiguinha, o que me conta é deveras triste, porém sou forçado a dizer-lhe o seguinte: «Não meto prego nem estopa» no assunto. Se a natureza e o Criador quiseram que assim fosse, quem sou eu, um humilde leão mortal, para os contrariar?
Se a dona cigarra lhe quiser devolver as coisas, não me oponho, mas se não quiser não a obrigarei.


CIGARRA
- ( matreira) Majestade; Quão sábias são as palavras! Também eu, uma humilde e mortal cigarra, não irei contrariar a vontade divina!

REI LEÃO
- Pois então está decidido, e como diz o rifão: "O que está decidido decidido está". Podem retirar-se ambas porque dou por finda a audiência, mas antes ainda pergunto à dona formiguinha se tem mais alguma coisa a alegar.

FORMIGUINHA
- Mas que posso eu alegar Majestade, por mais razão que me assista contra a vossa poderosa vontade? Nada! Tenho que me resignar. No entanto, pedir-vos-ia só uma coisinha...

REI LEÃO
- Diga lá então depressinha que eu tenho mais que fazer!

FORMIGUINHA
- Se Vossa Majestade, nas suas deambulações por aí, encontrar alguma vez um tal senhor de La Fontaine, dê-lhe por favor este recado:

Chega de cantar vitórias
à justiça e à verdade
porque uma coisa são histórias
e outra a realidade




por Zecatelhado * 17:28


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